Join us
Join us

Cannes Lions 2026: como o Brasil saiu na frente ao criar o primeiro Centro Internacional de Criatividade e IA

Durante boa parte dos últimos setenta anos, a criatividade foi tratada como um atributo essencialmente humano. Podia ser ensinada, estimulada, refinada e organizada em processos, mas permanecia associada à capacidade singular de imaginar o que ainda não existia, conectar ideias aparentemente desconectadas e atribuir significado ao mundo. Essa compreensão sustentou não apenas o desenvolvimento das…
Press Room • 6 de July de 2026

Durante boa parte dos últimos setenta anos, a criatividade foi tratada como um atributo essencialmente humano. Podia ser ensinada, estimulada, refinada e organizada em processos, mas permanecia associada à capacidade singular de imaginar o que ainda não existia, conectar ideias aparentemente desconectadas e atribuir significado ao mundo.

Essa compreensão sustentou não apenas o desenvolvimento das indústrias criativas, mas também a forma como organizações, governos e universidades passaram a enxergar inovação ao longo do século XX. No entanto, como ocorre em momentos raros de transformação histórica, há ocasiões em que uma tecnologia deixa de representar apenas uma nova ferramenta e passa a alterar a própria natureza da atividade humana à qual se aplica.

A inteligência artificial parece ocupar exatamente esse lugar. O que começou como um avanço na automação de tarefas repetitivas rapidamente alcançou campos considerados, até pouco tempo atrás, exclusivamente humanos: escrever, compor, ilustrar, programar, projetar, pesquisar, ensinar e criar.

Em poucos anos, sistemas capazes de produzir textos, imagens, códigos, vídeos e modelos de raciocínio deixaram os laboratórios e passaram a integrar o cotidiano de milhões de profissionais. A consequência dessa mudança vai muito além do aumento de produtividade.

Ela desloca a fronteira entre execução e pensamento, entre ferramenta e autoria, entre eficiência e criatividade. Não por acaso, uma das transformações mais significativas observadas em 2026 não aconteceu dentro de uma empresa de tecnologia, mas no principal encontro internacional dedicado à criatividade: o Cannes Lions International Festival of Creativity.

Durante décadas, Cannes Lions funcionou como um termômetro privilegiado da economia criativa global. Muito mais do que premiar campanhas publicitárias, o festival sempre antecipou mudanças profundas na forma como marcas, agências, empresas e criadores compreendem cultura, comunicação e inovação.

Em diferentes momentos históricos, refletiu a ascensão da televisão, da internet, das redes sociais, dos dados, da economia da atenção e da creator economy. Em cada uma dessas transições, novas categorias surgiram, velhos modelos desapareceram e diferentes competências passaram a ser valorizadas.

Ainda assim, poucas edições representaram uma inflexão tão evidente quanto a de 2026. A inteligência artificial deixou de ocupar um espaço periférico para tornar-se um dos principais eixos curatoriais do festival. Mas talvez esse não tenha sido o aspecto mais importante. O que chamou atenção não foi a quantidade de palestras sobre IA nem a presença maciça das grandes empresas de tecnologia na Riviera Francesa.

O elemento realmente novo foi perceber que praticamente todas as conversas relevantes — sobre criatividade, estratégia, branding, produção audiovisual, design, negócios, educação e liderança — passaram, inevitavelmente, pela inteligência artificial. A IA deixou de ser uma tendência. Tornou-se condição estrutural da economia criativa contemporânea.

Essa mudança de perspectiva alterou inclusive a linguagem utilizada pelos principais líderes da indústria. Nos primeiros anos da popularização da IA generativa, a pergunta dominante era relativamente simples: a inteligência artificial substituirá profissionais criativos?

Em Cannes Lions 2026, essa questão praticamente desapareceu. Em seu lugar surgiu outra, muito mais sofisticada: o que diferencia pessoas, organizações e marcas quando todos têm acesso às mesmas ferramentas inteligentes? A resposta começou a aparecer ao longo da semana.

O diferencial competitivo deixou de residir exclusivamente na capacidade técnica de produzir conteúdo e passou a depender da qualidade do repertório humano, da formulação das perguntas, da clareza da intenção, da profundidade da leitura cultural e da responsabilidade sobre as decisões tomadas durante o processo criativo.

Em outras palavras, a tecnologia deixou de ser a vantagem. A vantagem voltou a ser humana. Essa mudança ajuda a explicar por que tantas apresentações insistiram menos nas capacidades dos algoritmos e mais na importância do julgamento, da sensibilidade, da autoria e da criatividade como competências estratégicas. Quando a execução se torna abundante, o pensamento passa a ser o recurso escasso.

Talvez o sinal mais revelador dessa transformação não tenha vindo das palestras, mas das próprias decisões institucionais do festival. Depois de enfrentar questionamentos relacionados ao uso inadequado de inteligência artificial, à apresentação de evidências inconsistentes e à autenticidade de determinados cases premiados na edição anterior, Cannes Lions respondeu endurecendo seus mecanismos de verificação.

Foram introduzidos novos padrões de integridade, revisão documental e auditoria dos materiais submetidos à competição, combinando análise humana e ferramentas tecnológicas para validar resultados apresentados pelas agências e anunciantes. A decisão ultrapassa a esfera administrativa de um prêmio internacional.

Ela revela que a criatividade entrou definitivamente em uma fase em que originalidade e confiança já não podem ser tratadas separadamente. A qualidade de uma ideia continua essencial, mas passa a depender também da transparência de seu processo, da veracidade de seus resultados e da responsabilidade com que tecnologias inteligentes são utilizadas.

Trata-se de uma mudança semelhante à observada no jornalismo, na pesquisa científica e em outros campos do conhecimento: quanto maior o poder das ferramentas disponíveis, maior a necessidade de fortalecer mecanismos de credibilidade capazes de preservar o valor daquilo que é produzido.

Esse deslocamento ajuda a compreender por que Cannes Lions 2026 talvez seja lembrado, no futuro, menos como o ano da inteligência artificial e mais como o momento em que a criatividade passou a ser discutida sob uma nova perspectiva. A IA já não representa apenas um conjunto de soluções tecnológicas.

Ela inaugura um novo ambiente intelectual, no qual criar deixa de significar apenas produzir algo inédito e passa a envolver escolhas sobre colaboração entre humanos e máquinas, preservação da autoria, desenvolvimento de pensamento crítico e construção de confiança. Essa é uma discussão que transcende publicidade, marketing ou comunicação.

Ela alcança universidades, empresas, governos, escolas, instituições culturais e toda organização cuja atividade dependa da capacidade humana de imaginar futuros possíveis. É precisamente nesse ponto que a criatividade deixa de ser apenas um ativo econômico para tornar-se uma questão estratégica de desenvolvimento.

E é também nesse ponto que países começam a disputar algo ainda mais valioso do que tecnologias: a capacidade de formular as ideias que orientarão o uso dessas tecnologias nas próximas décadas.

Ao longo do século XX, países aprenderam que sua influência internacional dependia de fatores relativamente tangíveis. Território, capacidade industrial, recursos naturais, força militar e desenvolvimento científico constituíam os principais indicadores de poder. No entanto, à medida que economias avançadas passaram a competir cada vez menos pela produção de bens físicos e cada vez mais pela produção de conhecimento, cultura e inovação, outro conceito começou a ganhar importância nas relações internacionais: o soft power.

Formulado pelo cientista político Joseph Nye no início da década de 1990, o conceito descreve a capacidade de uma nação influenciar outras não por coerção ou imposição, mas pela força de suas ideias, de sua cultura, de suas instituições e da confiança que inspira. Hollywood talvez seja seu exemplo mais conhecido.

As universidades norte-americanas constituem outro. A BBC no Reino Unido, o design escandinavo, a diplomacia cultural francesa, a indústria criativa sul-coreana e o ecossistema tecnológico israelense representam manifestações distintas da mesma lógica.

Em todos esses casos, o ativo estratégico não é apenas aquilo que um país produz. É a capacidade de moldar referências, estabelecer agendas e influenciar a forma como outras sociedades interpretam o mundo. No século XXI, esse tipo de influência tornou-se ainda mais relevante porque conhecimento passou a circular com velocidade sem precedentes.

Quando tecnologias se disseminam rapidamente, a vantagem competitiva deixa de estar apenas na capacidade de desenvolvê-las. Passa a residir também na capacidade de formular as perguntas que orientarão seu uso.

É sob essa perspectiva que a criatividade precisa ser compreendida hoje. Durante muito tempo ela foi tratada como um atributo quase intuitivo, frequentemente associado ao talento individual ou às chamadas indústrias culturais. Essa visão já não é suficiente para explicar seu papel na economia contemporânea.

Relatórios produzidos por organismos internacionais, universidades e centros de pesquisa vêm demonstrando que criatividade deixou de representar apenas uma competência artística para tornar-se uma infraestrutura da inovação econômica.

Ela influencia desde o desenvolvimento de novos medicamentos até a formulação de políticas públicas, passando pela engenharia, pela educação, pela arquitetura, pela inteligência de negócios, pela ciência de dados e pela transformação digital. Em um ambiente no qual sistemas inteligentes tornam acessíveis tarefas antes altamente especializadas, a vantagem competitiva tende a migrar para capacidades mais difíceis de automatizar: interpretar contextos complexos, formular hipóteses originais, combinar conhecimentos de áreas distintas, produzir significado cultural e exercer julgamento diante de situações inéditas.

Em outras palavras, aquilo que durante décadas foi chamado simplesmente de criatividade passa a ser reconhecido como uma competência estrutural para sociedades que pretendem permanecer inovadoras em uma economia intensamente mediada por inteligência artificial.

Essa mudança altera também a posição do Brasil no cenário internacional. Historicamente, o país construiu sua reputação criativa muito antes de desenvolver uma estratégia formal para isso. A música brasileira tornou-se patrimônio cultural global. A arquitetura modernista influenciou gerações de urbanistas.

O cinema, o design, a moda e a gastronomia consolidaram linguagens próprias reconhecidas internacionalmente. Na publicidade, esse reconhecimento atingiu um grau raro de institucionalização. Ao longo de décadas, o Brasil tornou-se uma das maiores potências criativas do Cannes Lions, formando profissionais que passaram a ocupar posições de liderança em agências, empresas e organizações espalhadas pelo mundo. Essa trajetória produziu algo mais valioso do que troféus.

Produziu reputação. Sempre que criatividade era discutida em escala global, o Brasil figurava entre os países cuja contribuição dificilmente poderia ser ignorada. Ainda assim, havia um limite implícito nessa projeção internacional. O país era reconhecido principalmente como produtor de criatividade. Muito menos como produtor de pensamento sistemático sobre criatividade. Essa diferença parece sutil, mas possui enorme importância estratégica.

Criar soluções extraordinárias confere prestígio. Produzir instituições capazes de interpretar, pesquisar e organizar o conhecimento sobre essas soluções produz influência de longo prazo.

É justamente esse deslocamento que começa a ganhar forma no momento em que inteligência artificial e criatividade passam a convergir. Se o século passado foi marcado pela exportação de bens culturais, o século XXI tende a valorizar cada vez mais a exportação de modelos intelectuais capazes de orientar a convivência entre tecnologias inteligentes e capacidades humanas.

Trata-se de um desafio que nenhuma disciplina consegue responder isoladamente. Engenharia explica como construir sistemas inteligentes. Ciência da computação explica seu funcionamento. Economia analisa seus impactos produtivos. Direito discute regulação. Mas permanece aberta uma pergunta que atravessa todas essas áreas: como preservar a capacidade humana de aprender, imaginar, decidir e criar quando parte crescente dessas atividades passa a ser compartilhada com máquinas?

Essa questão não pertence apenas às empresas de tecnologia. Ela pertence às universidades, às escolas, às organizações criativas, aos formuladores de políticas públicas e às lideranças empresariais. Mais importante ainda, ela exige instituições capazes de reunir diferentes campos do conhecimento para produzir interpretações que ultrapassem a lógica da inovação tecnológica.

É precisamente nesse ponto que criatividade deixa de ser apenas um setor econômico e passa a constituir uma agenda de desenvolvimento nacional.

Nesse contexto, torna-se possível compreender por que determinadas iniciativas possuem relevância que ultrapassa seu anúncio institucional. Em determinados momentos históricos, uma organização nasce para executar projetos específicos.

Em outros, surge para preencher um vazio intelectual criado por mudanças que ainda não encontraram linguagem adequada para serem compreendidas. A rápida expansão da inteligência artificial produziu exatamente esse tipo de vazio. Multiplicaram-se laboratórios, plataformas, ferramentas e modelos computacionais.

Tornaram-se comuns conferências dedicadas à adoção de IA em diferentes setores. Cresceram os investimentos privados em infraestrutura tecnológica. O que permaneceu relativamente escasso foram espaços permanentes dedicados a investigar como essas transformações alteram criatividade, aprendizagem, cultura, liderança e desenvolvimento humano.

Em uma economia que passa a depender cada vez mais da qualidade das decisões humanas diante de sistemas inteligentes, talvez a escassez mais importante já não seja tecnológica. Ela seja intelectual. E é justamente nesse ponto que o Brasil parece começar a construir uma contribuição capaz de dialogar com uma agenda internacional muito mais ampla do que aquela tradicionalmente associada às indústrias criativas.

Quando uma instituição nasce para responder perguntas que ainda não existem

Há uma característica comum às instituições que acabam marcando uma época. Elas raramente surgem quando todos já concordam sobre qual é o problema. Ao contrário, costumam nascer precisamente no intervalo entre uma transformação que já começou e a linguagem necessária para compreendê-la. Universidades, centros de pesquisa, organizações multilaterais e grandes think tanks quase sempre aparecem nesse espaço intermediário.

Não são criados porque uma tecnologia foi inventada, mas porque seus efeitos passaram a escapar às estruturas tradicionais de interpretação. O século XX oferece inúmeros exemplos desse movimento. A consolidação da física moderna exigiu laboratórios capazes de reunir cientistas de diferentes países.

A globalização econômica levou ao fortalecimento de organismos internacionais dedicados à formulação de políticas públicas e ao desenvolvimento. A expansão da internet impulsionou centros voltados à governança digital, privacidade e cibersegurança. Em todos esses casos, a tecnologia representava apenas o ponto de partida. O verdadeiro desafio era compreender como ela alterava relações sociais, modelos econômicos, instituições e formas de produzir conhecimento.

A inteligência artificial parece inaugurar uma transformação semelhante. A velocidade com que novos modelos são desenvolvidos, incorporados ao mercado e disseminados entre organizações faz com que a questão mais importante deixe de ser tecnológica.

Ela passa a ser civilizatória. Não basta perguntar o que a inteligência artificial consegue fazer. É preciso compreender o que ela modifica na maneira como seres humanos aprendem, criam, cooperam, tomam decisões e constroem confiança.

É justamente por essa razão que o surgimento de instituições dedicadas a estudar criatividade e inteligência artificial merece atenção. Nos últimos anos, o debate internacional concentrou-se, em grande medida, sobre infraestrutura computacional, capacidade de processamento, modelos fundacionais, regulação e competitividade tecnológica.

São discussões indispensáveis, mas insuficientes. Elas respondem como construir sistemas inteligentes, mas oferecem poucas respostas sobre como sociedades devem reorganizar educação, trabalho, cultura e inovação quando esses sistemas passam a participar da produção cotidiana de conhecimento. A criatividade ocupa um lugar singular nesse cenário porque representa uma das poucas capacidades humanas que atravessam praticamente todos os setores da economia.

Ela está presente na pesquisa científica, na indústria, na gestão pública, no empreendedorismo, na comunicação, no design, na engenharia e na produção cultural. Se a inteligência artificial modifica a criatividade, modifica também a forma como diferentes setores imaginam soluções para problemas complexos. Essa percepção ajuda a explicar por que o debate internacional começa a deslocar seu foco da ferramenta para a cognição.

A pergunta relevante já não é qual plataforma utilizar, mas como preservar capacidades intelectuais que sempre dependeram do exercício contínuo da imaginação, do julgamento crítico e da experimentação humana.

É nesse contexto que nasce o Centro Internacional de Criatividade e Inteligência Artificial Aplicada, uma iniciativa desenvolvida pela World Creativity Organization (WCO) em parceria com a ioasys. Seu significado, porém, dificilmente pode ser compreendido apenas como o lançamento de mais um centro de pesquisa ou de um novo programa de inovação.

A proposta representa algo mais ambicioso: criar um espaço permanente de investigação sobre a relação entre criatividade humana e sistemas inteligentes, reunindo pesquisadores, executivos, criativos, educadores, formuladores de políticas públicas e organizações interessadas em compreender os efeitos de uma transformação que ultrapassa fronteiras disciplinares.

Em vez de concentrar esforços na construção de novas ferramentas, o Centro parte de uma premissa diferente: a de que a inteligência artificial inaugura uma nova etapa da criatividade e, portanto, exige novos referenciais para interpretar seus impactos. Essa escolha revela uma compreensão sofisticada do momento histórico. Toda grande transformação tecnológica produz uma corrida por infraestrutura. Poucas produzem, simultaneamente, um investimento equivalente em infraestrutura intelectual. O Centro nasce justamente para ocupar esse segundo espaço.

A parceria que sustenta essa iniciativa também merece ser observada sob uma perspectiva mais ampla. A World Creativity Organization, desde sua criação, consolidou-se como uma organização dedicada à promoção da criatividade como vetor de desenvolvimento humano, econômico e social, aproximando governos, universidades, empresas e comunidades em torno de uma agenda que ultrapassa os limites tradicionais das indústrias criativas.

A ioasys, por sua vez, representa uma trajetória construída na fronteira entre transformação digital, desenvolvimento tecnológico e inteligência artificial aplicada aos negócios. A convergência entre essas duas organizações produz uma combinação incomum. De um lado, uma instituição voltada à compreensão da criatividade como competência estratégica para sociedades contemporâneas.

De outro, uma empresa cuja experiência está diretamente relacionada à implementação prática das tecnologias que hoje remodelam processos organizacionais. Em vez de reproduzir a separação frequentemente observada entre humanidades e tecnologia, a parceria propõe uma arquitetura institucional baseada na complementaridade entre esses campos.

Trata-se de um detalhe importante porque a maior parte das decisões relacionadas à inteligência artificial não será tomada exclusivamente por engenheiros nem exclusivamente por filósofos. Elas dependerão, cada vez mais, da capacidade de construir ambientes onde diferentes formas de conhecimento possam dialogar de maneira contínua.

Talvez o aspecto mais relevante do Centro seja, contudo, aquilo que ele escolhe investigar. Em um cenário no qual praticamente todas as organizações discutem ganhos de eficiência, automação e produtividade, sua primeira grande pergunta parece deslocar deliberadamente o foco da tecnologia para a aprendizagem humana: quem aprende quando a inteligência artificial faz por você?

A força dessa formulação reside justamente em sua simplicidade. Ela sintetiza uma inquietação que atravessa educação, criatividade, liderança e inovação. Durante séculos, aprender significou executar, errar, repetir, corrigir e desenvolver repertório a partir da experiência acumulada. Mas o que acontece quando parte crescente dessa experiência é delegada a sistemas capazes de produzir respostas instantâneas?

O que acontece com o desenvolvimento do pensamento criativo quando a primeira versão de praticamente qualquer ideia pode ser gerada por um algoritmo? Como preservar autoria, julgamento e senso crítico em um ambiente no qual executar deixa de ser a principal dificuldade? Essas questões não pertencem apenas ao universo da inteligência artificial.

Elas dizem respeito à formação das próximas gerações de profissionais, pesquisadores, artistas, empreendedores e líderes. Ao escolher começar por essa pergunta, o Centro sinaliza que sua ambição não é acompanhar a evolução tecnológica, mas contribuir para compreender como ela transforma aquilo que continua sendo essencialmente humano.

Toda transformação tecnológica produz uma ilusão recorrente. Em um primeiro momento, tende-se a acreditar que o elemento decisivo será a tecnologia em si. Foi assim com a eletricidade, com a informática, com a internet e, mais recentemente, com a inteligência artificial. Os primeiros anos costumam ser dominados pela corrida por infraestrutura, investimento, escala e adoção. Empresas disputam velocidade. Mercados disputam liderança.

Governos disputam soberania tecnológica. Mas, à medida que essas tecnologias amadurecem, a competição muda de natureza. Quando o acesso se democratiza, a vantagem deixa de estar exclusivamente nas ferramentas e passa a residir na qualidade das decisões tomadas por quem as utiliza. A história da inovação demonstra esse padrão de forma consistente. Poucas organizações permanecem relevantes apenas porque adotaram uma tecnologia antes das demais.

As que atravessam décadas de transformação são aquelas capazes de reinterpretar continuamente o papel dessa tecnologia dentro de mudanças culturais, econômicas e humanas mais amplas. É justamente essa transição que parece começar a ocorrer com a inteligência artificial. A questão central já não é quem possui acesso aos modelos mais sofisticados. Em poucos anos, esse acesso tende a se tornar relativamente comum.

A questão passa a ser quem desenvolve melhor capacidade de julgamento, repertório interdisciplinar, imaginação estratégica e responsabilidade intelectual para orientar sistemas cujo poder continuará crescendo. Em outras palavras, a escassez desloca-se da computação para a cognição humana.

É nesse contexto que o encontro promovido pelo Centro Internacional de Criatividade e Inteligência Artificial Aplicada, no próximo 17 de julho, adquire significado que ultrapassa a programação de um evento. Seu tema — “Quem aprende quando a IA faz por você?” — representa uma inflexão importante no debate contemporâneo sobre inteligência artificial.

Em vez de perguntar quanto tempo será economizado, quantos processos poderão ser automatizados ou quantas tarefas poderão ser delegadas aos algoritmos, a discussão parte de uma questão mais difícil e provavelmente mais duradoura: o que acontece com a aprendizagem humana quando a execução deixa de depender integralmente das pessoas?

Trata-se de uma pergunta que atravessa praticamente todas as profissões criativas. Um redator que utiliza IA para produzir a primeira versão de um texto aprende da mesma forma que alguém que constrói um argumento desde a página em branco? Um designer que recebe dezenas de alternativas instantaneamente desenvolve o mesmo repertório visual daquele que experimenta sucessivas soluções até chegar a uma composição consistente?

Um estudante que terceiriza parte do raciocínio para sistemas inteligentes preserva sua capacidade de formular problemas complexos? Nenhuma dessas perguntas possui resposta definitiva. E talvez seja precisamente por isso que elas precisem ser discutidas antes que as práticas se consolidem como hábitos invisíveis.

A composição do primeiro encontro revela uma compreensão igualmente sofisticada desse desafio. Em vez de reunir apenas especialistas em tecnologia, o Centro aproxima perspectivas capazes de iluminar dimensões complementares da mesma transformação.

Mauro Cavalletti, Executive Creative Director da Bitnik, representa uma geração de criativos que acompanhou a passagem da publicidade analógica para a cultura digital e agora observa a inteligência artificial remodelar o próprio processo de criação. Sua experiência permite compreender como criatividade, linguagem e experimentação se reorganizam quando novas ferramentas passam a participar da elaboração de ideias.

Camilo Barros, Chief Business Officer do Institute for Tomorrow, traz para a conversa uma abordagem voltada à construção de futuros, estratégia e transformação organizacional, lembrando que a inteligência artificial não altera apenas produtos ou campanhas, mas também modelos de negócio, capacidades institucionais e formas de tomada de decisão.

Stela Pagani, COO e sócia da 20DASH, acrescenta uma perspectiva decisiva para o debate contemporâneo: a gestão da inovação em ambientes onde tecnologia, pessoas e cultura precisam evoluir simultaneamente. Observados em conjunto, esses três convidados não representam apenas diferentes organizações. Representam três tradições intelectuais indispensáveis para compreender o futuro da criatividade: a criação, a estratégia e a capacidade de transformar conhecimento em organizações capazes de aprender continuamente.

Talvez essa seja, afinal, a principal contribuição do Centro Internacional de Criatividade e Inteligência Artificial Aplicada para o debate internacional. Em vez de organizar mais uma conversa sobre ferramentas, ele propõe discutir aquilo que permanecerá relevante quando as ferramentas deixarem de ser novidade.

A inteligência artificial continuará evoluindo. Novos modelos surgirão. Capacidades hoje consideradas extraordinárias tornar-se-ão rotineiras. A velocidade dessa transformação dificilmente diminuirá. O que permanecerá em aberto será uma questão muito mais difícil de responder: como preservar a criatividade como uma competência genuinamente humana em um ambiente onde a execução tende a ser cada vez mais automatizada?

Essa pergunta não interessa apenas ao mercado publicitário nem às empresas de tecnologia. Ela diz respeito à formação de professores, pesquisadores, artistas, empreendedores, cientistas, gestores públicos e líderes empresariais. Diz respeito, em última análise, à capacidade das sociedades de continuar produzindo conhecimento original quando grande parte das respostas já puder ser gerada automaticamente. Ao transformar essa inquietação em agenda permanente de pesquisa, diálogo e reflexão, o Centro sinaliza uma mudança importante de posicionamento.

O Brasil, tradicionalmente reconhecido pela excelência de sua produção criativa, começa a reivindicar também um lugar na formulação das ideias que orientarão a próxima etapa da economia do conhecimento.

Há uma razão pela qual esse movimento merece ser observado com atenção. Ao longo da história, países conquistaram projeção internacional exportando recursos naturais, produtos industriais, tecnologias ou bens culturais.

O século XXI acrescenta uma nova dimensão a essa equação: a capacidade de produzir instituições que ajudem o mundo a compreender transformações complexas. Em um cenário marcado pela aceleração tecnológica, talvez o recurso mais escasso não seja informação, processamento ou conectividade.

Talvez seja a capacidade coletiva de interpretar as consequências dessas mudanças antes que elas se tornem irreversíveis. Se essa hipótese estiver correta, iniciativas como o Centro Internacional de Criatividade e Inteligência Artificial Aplicada não representam apenas um novo espaço de debate. Representam um investimento em infraestrutura intelectual. E infraestrutura intelectual constitui uma das formas mais sofisticadas de soft power que uma sociedade pode construir.

Cannes Lions 2026 mostrou que criatividade e inteligência artificial passaram definitivamente a compartilhar o mesmo palco. O desafio que se abre agora é decidir quem ajudará a escrever o roteiro dessa nova era.

O Brasil parece ter decidido que pretende participar dessa conversa não apenas como protagonista criativo, mas como produtor de pensamento. Em um mundo no qual máquinas aprendem cada vez mais rápido, essa talvez seja a decisão mais estratégica de todas: investir na capacidade humana de continuar fazendo as perguntas que nenhuma inteligência artificial pode formular sozinha.

Serviço
Evento: Quem aprende quando a IA faz por você?
Data: 17 de julho
Horário: 16h
Formato: presencial
Local: Av. Dr. Chucri Zaidan, 246, 25º andar, Vila Cordeiro, São Paulo

O futuro da criatividade não será decidido apenas por quem domina a tecnologia. Será decidido por quem souber fazer as melhores perguntas.

Veja também: