{"id":1138,"date":"2026-07-06T18:44:30","date_gmt":"2026-07-06T21:44:30","guid":{"rendered":"https:\/\/worldcreativity.org\/?p=1138"},"modified":"2026-07-06T20:03:39","modified_gmt":"2026-07-06T23:03:39","slug":"cannes-lions-2026-como-o-brasil-saiu-na-frente-ao-criar-o-primeiro-centro-internacional-de-criatividade-e-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/worldcreativity.org\/es\/cannes-lions-2026-como-o-brasil-saiu-na-frente-ao-criar-o-primeiro-centro-internacional-de-criatividade-e-ia\/","title":{"rendered":"Cannes Lions 2026: como o Brasil saiu na frente ao criar o primeiro Centro Internacional de Criatividade e IA"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante boa parte dos \u00faltimos setenta anos, a criatividade foi tratada como um atributo essencialmente humano. Podia ser ensinada, estimulada, refinada e organizada em processos, mas permanecia associada \u00e0 capacidade singular de imaginar o que ainda n\u00e3o existia, conectar ideias aparentemente desconectadas e atribuir significado ao mundo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa compreens\u00e3o sustentou n\u00e3o apenas o desenvolvimento das ind\u00fastrias criativas, mas tamb\u00e9m a forma como organiza\u00e7\u00f5es, governos e universidades passaram a enxergar inova\u00e7\u00e3o ao longo do s\u00e9culo XX. No entanto, como ocorre em momentos raros de transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, h\u00e1 ocasi\u00f5es em que uma tecnologia deixa de representar apenas uma nova ferramenta e passa a alterar a pr\u00f3pria natureza da atividade humana \u00e0 qual se aplica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intelig\u00eancia artificial parece ocupar exatamente esse lugar. O que come\u00e7ou como um avan\u00e7o na automa\u00e7\u00e3o de tarefas repetitivas rapidamente alcan\u00e7ou campos considerados, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, exclusivamente humanos: escrever, compor, ilustrar, programar, projetar, pesquisar, ensinar e criar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em poucos anos, sistemas capazes de produzir textos, imagens, c\u00f3digos, v\u00eddeos e modelos de racioc\u00ednio deixaram os laborat\u00f3rios e passaram a integrar o cotidiano de milh\u00f5es de profissionais. A consequ\u00eancia dessa mudan\u00e7a vai muito al\u00e9m do aumento de produtividade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela desloca a fronteira entre execu\u00e7\u00e3o e pensamento, entre ferramenta e autoria, entre efici\u00eancia e criatividade. N\u00e3o por acaso, uma das transforma\u00e7\u00f5es mais significativas observadas em 2026 n\u00e3o aconteceu dentro de uma empresa de tecnologia, mas no principal encontro internacional dedicado \u00e0 criatividade: o Cannes Lions International Festival of Creativity.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante d\u00e9cadas, Cannes Lions funcionou como um term\u00f4metro privilegiado da economia criativa global. Muito mais do que premiar campanhas publicit\u00e1rias, o festival sempre antecipou mudan\u00e7as profundas na forma como marcas, ag\u00eancias, empresas e criadores compreendem cultura, comunica\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em diferentes momentos hist\u00f3ricos, refletiu a ascens\u00e3o da televis\u00e3o, da internet, das redes sociais, dos dados, da economia da aten\u00e7\u00e3o e da creator economy. Em cada uma dessas transi\u00e7\u00f5es, novas categorias surgiram, velhos modelos desapareceram e diferentes compet\u00eancias passaram a ser valorizadas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, poucas edi\u00e7\u00f5es representaram uma inflex\u00e3o t\u00e3o evidente quanto a de 2026. A intelig\u00eancia artificial deixou de ocupar um espa\u00e7o perif\u00e9rico para tornar-se um dos principais eixos curatoriais do festival. Mas talvez esse n\u00e3o tenha sido o aspecto mais importante. O que chamou aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi a quantidade de palestras sobre IA nem a presen\u00e7a maci\u00e7a das grandes empresas de tecnologia na Riviera Francesa. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O elemento realmente novo foi perceber que praticamente todas as conversas relevantes \u2014 sobre criatividade, estrat\u00e9gia, branding, produ\u00e7\u00e3o audiovisual, design, neg\u00f3cios, educa\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a \u2014 passaram, inevitavelmente, pela intelig\u00eancia artificial. A IA deixou de ser uma tend\u00eancia. Tornou-se condi\u00e7\u00e3o estrutural da economia criativa contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a de perspectiva alterou inclusive a linguagem utilizada pelos principais l\u00edderes da ind\u00fastria. Nos primeiros anos da populariza\u00e7\u00e3o da IA generativa, a pergunta dominante era relativamente simples: <em>a intelig\u00eancia artificial substituir\u00e1 profissionais criativos?<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Cannes Lions 2026, essa quest\u00e3o praticamente desapareceu. Em seu lugar surgiu outra, muito mais sofisticada: <em>o que diferencia pessoas, organiza\u00e7\u00f5es e marcas quando todos t\u00eam acesso \u00e0s mesmas ferramentas inteligentes?<\/em> A resposta come\u00e7ou a aparecer ao longo da semana. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diferencial competitivo deixou de residir exclusivamente na capacidade t\u00e9cnica de produzir conte\u00fado e passou a depender da qualidade do repert\u00f3rio humano, da formula\u00e7\u00e3o das perguntas, da clareza da inten\u00e7\u00e3o, da profundidade da leitura cultural e da responsabilidade sobre as decis\u00f5es tomadas durante o processo criativo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, a tecnologia deixou de ser a vantagem. A vantagem voltou a ser humana. Essa mudan\u00e7a ajuda a explicar por que tantas apresenta\u00e7\u00f5es insistiram menos nas capacidades dos algoritmos e mais na import\u00e2ncia do julgamento, da sensibilidade, da autoria e da criatividade como compet\u00eancias estrat\u00e9gicas. Quando a execu\u00e7\u00e3o se torna abundante, o pensamento passa a ser o recurso escasso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o sinal mais revelador dessa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha vindo das palestras, mas das pr\u00f3prias decis\u00f5es institucionais do festival. Depois de enfrentar questionamentos relacionados ao uso inadequado de intelig\u00eancia artificial, \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias inconsistentes e \u00e0 autenticidade de determinados cases premiados na edi\u00e7\u00e3o anterior, Cannes Lions respondeu endurecendo seus mecanismos de verifica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram introduzidos novos padr\u00f5es de integridade, revis\u00e3o documental e auditoria dos materiais submetidos \u00e0 competi\u00e7\u00e3o, combinando an\u00e1lise humana e ferramentas tecnol\u00f3gicas para validar resultados apresentados pelas ag\u00eancias e anunciantes. A decis\u00e3o ultrapassa a esfera administrativa de um pr\u00eamio internacional. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela revela que a criatividade entrou definitivamente em uma fase em que originalidade e confian\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o podem ser tratadas separadamente. A qualidade de uma ideia continua essencial, mas passa a depender tamb\u00e9m da transpar\u00eancia de seu processo, da veracidade de seus resultados e da responsabilidade com que tecnologias inteligentes s\u00e3o utilizadas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de uma mudan\u00e7a semelhante \u00e0 observada no jornalismo, na pesquisa cient\u00edfica e em outros campos do conhecimento: quanto maior o poder das ferramentas dispon\u00edveis, maior a necessidade de fortalecer mecanismos de credibilidade capazes de preservar o valor daquilo que \u00e9 produzido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse deslocamento ajuda a compreender por que Cannes Lions 2026 talvez seja lembrado, no futuro, menos como o ano da intelig\u00eancia artificial e mais como o momento em que a criatividade passou a ser discutida sob uma nova perspectiva. A IA j\u00e1 n\u00e3o representa apenas um conjunto de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela inaugura um novo ambiente intelectual, no qual criar deixa de significar apenas produzir algo in\u00e9dito e passa a envolver escolhas sobre colabora\u00e7\u00e3o entre humanos e m\u00e1quinas, preserva\u00e7\u00e3o da autoria, desenvolvimento de pensamento cr\u00edtico e constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que transcende publicidade, marketing ou comunica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela alcan\u00e7a universidades, empresas, governos, escolas, institui\u00e7\u00f5es culturais e toda organiza\u00e7\u00e3o cuja atividade dependa da capacidade humana de imaginar futuros poss\u00edveis. \u00c9 precisamente nesse ponto que a criatividade deixa de ser apenas um ativo econ\u00f4mico para tornar-se uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica de desenvolvimento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 tamb\u00e9m nesse ponto que pa\u00edses come\u00e7am a disputar algo ainda mais valioso do que tecnologias: a capacidade de formular as ideias que orientar\u00e3o o uso dessas tecnologias nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do s\u00e9culo XX, pa\u00edses aprenderam que sua influ\u00eancia internacional dependia de fatores relativamente tang\u00edveis. Territ\u00f3rio, capacidade industrial, recursos naturais, for\u00e7a militar e desenvolvimento cient\u00edfico constitu\u00edam os principais indicadores de poder. No entanto, \u00e0 medida que economias avan\u00e7adas passaram a competir cada vez menos pela produ\u00e7\u00e3o de bens f\u00edsicos e cada vez mais pela produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, cultura e inova\u00e7\u00e3o, outro conceito come\u00e7ou a ganhar import\u00e2ncia nas rela\u00e7\u00f5es internacionais: o <strong>soft power<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Formulado pelo cientista pol\u00edtico Joseph Nye no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, o conceito descreve a capacidade de uma na\u00e7\u00e3o influenciar outras n\u00e3o por coer\u00e7\u00e3o ou imposi\u00e7\u00e3o, mas pela for\u00e7a de suas ideias, de sua cultura, de suas institui\u00e7\u00f5es e da confian\u00e7a que inspira. Hollywood talvez seja seu exemplo mais conhecido. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As universidades norte-americanas constituem outro. A BBC no Reino Unido, o design escandinavo, a diplomacia cultural francesa, a ind\u00fastria criativa sul-coreana e o ecossistema tecnol\u00f3gico israelense representam manifesta\u00e7\u00f5es distintas da mesma l\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em todos esses casos, o ativo estrat\u00e9gico n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que um pa\u00eds produz. \u00c9 a capacidade de moldar refer\u00eancias, estabelecer agendas e influenciar a forma como outras sociedades interpretam o mundo. No s\u00e9culo XXI, esse tipo de influ\u00eancia tornou-se ainda mais relevante porque conhecimento passou a circular com velocidade sem precedentes. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando tecnologias se disseminam rapidamente, a vantagem competitiva deixa de estar apenas na capacidade de desenvolv\u00ea-las. Passa a residir tamb\u00e9m na capacidade de formular as perguntas que orientar\u00e3o seu uso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 sob essa perspectiva que a criatividade precisa ser compreendida hoje. Durante muito tempo ela foi tratada como um atributo quase intuitivo, frequentemente associado ao talento individual ou \u00e0s chamadas ind\u00fastrias culturais. Essa vis\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente para explicar seu papel na economia contempor\u00e2nea. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Relat\u00f3rios produzidos por organismos internacionais, universidades e centros de pesquisa v\u00eam demonstrando que criatividade deixou de representar apenas uma compet\u00eancia art\u00edstica para tornar-se uma infraestrutura da inova\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela influencia desde o desenvolvimento de novos medicamentos at\u00e9 a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, passando pela engenharia, pela educa\u00e7\u00e3o, pela arquitetura, pela intelig\u00eancia de neg\u00f3cios, pela ci\u00eancia de dados e pela transforma\u00e7\u00e3o digital. Em um ambiente no qual sistemas inteligentes tornam acess\u00edveis tarefas antes altamente especializadas, a vantagem competitiva tende a migrar para capacidades mais dif\u00edceis de automatizar: interpretar contextos complexos, formular hip\u00f3teses originais, combinar conhecimentos de \u00e1reas distintas, produzir significado cultural e exercer julgamento diante de situa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, aquilo que durante d\u00e9cadas foi chamado simplesmente de criatividade passa a ser reconhecido como uma compet\u00eancia estrutural para sociedades que pretendem permanecer inovadoras em uma economia intensamente mediada por intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a altera tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o do Brasil no cen\u00e1rio internacional. Historicamente, o pa\u00eds construiu sua reputa\u00e7\u00e3o criativa muito antes de desenvolver uma estrat\u00e9gia formal para isso. A m\u00fasica brasileira tornou-se patrim\u00f4nio cultural global. A arquitetura modernista influenciou gera\u00e7\u00f5es de urbanistas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cinema, o design, a moda e a gastronomia consolidaram linguagens pr\u00f3prias reconhecidas internacionalmente. Na publicidade, esse reconhecimento atingiu um grau raro de institucionaliza\u00e7\u00e3o. Ao longo de d\u00e9cadas, o Brasil tornou-se uma das maiores pot\u00eancias criativas do Cannes Lions, formando profissionais que passaram a ocupar posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a em ag\u00eancias, empresas e organiza\u00e7\u00f5es espalhadas pelo mundo. Essa trajet\u00f3ria produziu algo mais valioso do que trof\u00e9us. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produziu reputa\u00e7\u00e3o. Sempre que criatividade era discutida em escala global, o Brasil figurava entre os pa\u00edses cuja contribui\u00e7\u00e3o dificilmente poderia ser ignorada. Ainda assim, havia um limite impl\u00edcito nessa proje\u00e7\u00e3o internacional. O pa\u00eds era reconhecido principalmente como produtor de criatividade. Muito menos como produtor de pensamento sistem\u00e1tico sobre criatividade. Essa diferen\u00e7a parece sutil, mas possui enorme import\u00e2ncia estrat\u00e9gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Criar solu\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias confere prest\u00edgio. Produzir institui\u00e7\u00f5es capazes de interpretar, pesquisar e organizar o conhecimento sobre essas solu\u00e7\u00f5es produz influ\u00eancia de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente esse deslocamento que come\u00e7a a ganhar forma no momento em que intelig\u00eancia artificial e criatividade passam a convergir. Se o s\u00e9culo passado foi marcado pela exporta\u00e7\u00e3o de bens culturais, o s\u00e9culo XXI tende a valorizar cada vez mais a exporta\u00e7\u00e3o de modelos intelectuais capazes de orientar a conviv\u00eancia entre tecnologias inteligentes e capacidades humanas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de um desafio que nenhuma disciplina consegue responder isoladamente. Engenharia explica como construir sistemas inteligentes. Ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o explica seu funcionamento. Economia analisa seus impactos produtivos. Direito discute regula\u00e7\u00e3o. Mas permanece aberta uma pergunta que atravessa todas essas \u00e1reas: como preservar a capacidade humana de aprender, imaginar, decidir e criar quando parte crescente dessas atividades passa a ser compartilhada com m\u00e1quinas? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa quest\u00e3o n\u00e3o pertence apenas \u00e0s empresas de tecnologia. Ela pertence \u00e0s universidades, \u00e0s escolas, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es criativas, aos formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas e \u00e0s lideran\u00e7as empresariais. Mais importante ainda, ela exige institui\u00e7\u00f5es capazes de reunir diferentes campos do conhecimento para produzir interpreta\u00e7\u00f5es que ultrapassem a l\u00f3gica da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 precisamente nesse ponto que criatividade deixa de ser apenas um setor econ\u00f4mico e passa a constituir uma agenda de desenvolvimento nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, torna-se poss\u00edvel compreender por que determinadas iniciativas possuem relev\u00e2ncia que ultrapassa seu an\u00fancio institucional. Em determinados momentos hist\u00f3ricos, uma organiza\u00e7\u00e3o nasce para executar projetos espec\u00edficos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outros, surge para preencher um vazio intelectual criado por mudan\u00e7as que ainda n\u00e3o encontraram linguagem adequada para serem compreendidas. A r\u00e1pida expans\u00e3o da intelig\u00eancia artificial produziu exatamente esse tipo de vazio. Multiplicaram-se laborat\u00f3rios, plataformas, ferramentas e modelos computacionais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tornaram-se comuns confer\u00eancias dedicadas \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de IA em diferentes setores. Cresceram os investimentos privados em infraestrutura tecnol\u00f3gica. O que permaneceu relativamente escasso foram espa\u00e7os permanentes dedicados a investigar como essas transforma\u00e7\u00f5es alteram criatividade, aprendizagem, cultura, lideran\u00e7a e desenvolvimento humano. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma economia que passa a depender cada vez mais da qualidade das decis\u00f5es humanas diante de sistemas inteligentes, talvez a escassez mais importante j\u00e1 n\u00e3o seja tecnol\u00f3gica. Ela seja intelectual. E \u00e9 justamente nesse ponto que o Brasil parece come\u00e7ar a construir uma contribui\u00e7\u00e3o capaz de dialogar com uma agenda internacional muito mais ampla do que aquela tradicionalmente associada \u00e0s ind\u00fastrias criativas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando uma institui\u00e7\u00e3o nasce para responder perguntas que ainda n\u00e3o existem<br><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma caracter\u00edstica comum \u00e0s institui\u00e7\u00f5es que acabam marcando uma \u00e9poca. Elas raramente surgem quando todos j\u00e1 concordam sobre qual \u00e9 o problema. Ao contr\u00e1rio, costumam nascer precisamente no intervalo entre uma transforma\u00e7\u00e3o que j\u00e1 come\u00e7ou e a linguagem necess\u00e1ria para compreend\u00ea-la. Universidades, centros de pesquisa, organiza\u00e7\u00f5es multilaterais e grandes think tanks quase sempre aparecem nesse espa\u00e7o intermedi\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o s\u00e3o criados porque uma tecnologia foi inventada, mas porque seus efeitos passaram a escapar \u00e0s estruturas tradicionais de interpreta\u00e7\u00e3o. O s\u00e9culo XX oferece in\u00fameros exemplos desse movimento. A consolida\u00e7\u00e3o da f\u00edsica moderna exigiu laborat\u00f3rios capazes de reunir cientistas de diferentes pa\u00edses. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica levou ao fortalecimento de organismos internacionais dedicados \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e ao desenvolvimento. A expans\u00e3o da internet impulsionou centros voltados \u00e0 governan\u00e7a digital, privacidade e ciberseguran\u00e7a. Em todos esses casos, a tecnologia representava apenas o ponto de partida. O verdadeiro desafio era compreender como ela alterava rela\u00e7\u00f5es sociais, modelos econ\u00f4micos, institui\u00e7\u00f5es e formas de produzir conhecimento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intelig\u00eancia artificial parece inaugurar uma transforma\u00e7\u00e3o semelhante. A velocidade com que novos modelos s\u00e3o desenvolvidos, incorporados ao mercado e disseminados entre organiza\u00e7\u00f5es faz com que a quest\u00e3o mais importante deixe de ser tecnol\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela passa a ser civilizat\u00f3ria. N\u00e3o basta perguntar o que a intelig\u00eancia artificial consegue fazer. \u00c9 preciso compreender o que ela modifica na maneira como seres humanos aprendem, criam, cooperam, tomam decis\u00f5es e constroem confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente por essa raz\u00e3o que o surgimento de institui\u00e7\u00f5es dedicadas a estudar criatividade e intelig\u00eancia artificial merece aten\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, o debate internacional concentrou-se, em grande medida, sobre infraestrutura computacional, capacidade de processamento, modelos fundacionais, regula\u00e7\u00e3o e competitividade tecnol\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o discuss\u00f5es indispens\u00e1veis, mas insuficientes. Elas respondem como construir sistemas inteligentes, mas oferecem poucas respostas sobre como sociedades devem reorganizar educa\u00e7\u00e3o, trabalho, cultura e inova\u00e7\u00e3o quando esses sistemas passam a participar da produ\u00e7\u00e3o cotidiana de conhecimento. A criatividade ocupa um lugar singular nesse cen\u00e1rio porque representa uma das poucas capacidades humanas que atravessam praticamente todos os setores da economia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela est\u00e1 presente na pesquisa cient\u00edfica, na ind\u00fastria, na gest\u00e3o p\u00fablica, no empreendedorismo, na comunica\u00e7\u00e3o, no design, na engenharia e na produ\u00e7\u00e3o cultural. Se a intelig\u00eancia artificial modifica a criatividade, modifica tamb\u00e9m a forma como diferentes setores imaginam solu\u00e7\u00f5es para problemas complexos. Essa percep\u00e7\u00e3o ajuda a explicar por que o debate internacional come\u00e7a a deslocar seu foco da ferramenta para a cogni\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta relevante j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 qual plataforma utilizar, mas como preservar capacidades intelectuais que sempre dependeram do exerc\u00edcio cont\u00ednuo da imagina\u00e7\u00e3o, do julgamento cr\u00edtico e da experimenta\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse contexto que nasce o <strong>Centro Internacional de Criatividade e Intelig\u00eancia Artificial Aplicada<\/strong>, uma iniciativa desenvolvida pela <strong>World Creativity Organization (WCO)<\/strong> em parceria com a <strong>ioasys<\/strong>. Seu significado, por\u00e9m, dificilmente pode ser compreendido apenas como o lan\u00e7amento de mais um centro de pesquisa ou de um novo programa de inova\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta representa algo mais ambicioso: criar um espa\u00e7o permanente de investiga\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre criatividade humana e sistemas inteligentes, reunindo pesquisadores, executivos, criativos, educadores, formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas e organiza\u00e7\u00f5es interessadas em compreender os efeitos de uma transforma\u00e7\u00e3o que ultrapassa fronteiras disciplinares. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de concentrar esfor\u00e7os na constru\u00e7\u00e3o de novas ferramentas, o Centro parte de uma premissa diferente: a de que a intelig\u00eancia artificial inaugura uma nova etapa da criatividade e, portanto, exige novos referenciais para interpretar seus impactos. Essa escolha revela uma compreens\u00e3o sofisticada do momento hist\u00f3rico. Toda grande transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica produz uma corrida por infraestrutura. Poucas produzem, simultaneamente, um investimento equivalente em infraestrutura intelectual. O Centro nasce justamente para ocupar esse segundo espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A parceria que sustenta essa iniciativa tamb\u00e9m merece ser observada sob uma perspectiva mais ampla. A <strong>World Creativity Organization<\/strong>, desde sua cria\u00e7\u00e3o, consolidou-se como uma organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da criatividade como vetor de desenvolvimento humano, econ\u00f4mico e social, aproximando governos, universidades, empresas e comunidades em torno de uma agenda que ultrapassa os limites tradicionais das ind\u00fastrias criativas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>ioasys<\/strong>, por sua vez, representa uma trajet\u00f3ria constru\u00edda na fronteira entre transforma\u00e7\u00e3o digital, desenvolvimento tecnol\u00f3gico e intelig\u00eancia artificial aplicada aos neg\u00f3cios. A converg\u00eancia entre essas duas organiza\u00e7\u00f5es produz uma combina\u00e7\u00e3o incomum. De um lado, uma institui\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 compreens\u00e3o da criatividade como compet\u00eancia estrat\u00e9gica para sociedades contempor\u00e2neas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De outro, uma empresa cuja experi\u00eancia est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica das tecnologias que hoje remodelam processos organizacionais. Em vez de reproduzir a separa\u00e7\u00e3o frequentemente observada entre humanidades e tecnologia, a parceria prop\u00f5e uma arquitetura institucional baseada na complementaridade entre esses campos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de um detalhe importante porque a maior parte das decis\u00f5es relacionadas \u00e0 intelig\u00eancia artificial n\u00e3o ser\u00e1 tomada exclusivamente por engenheiros nem exclusivamente por fil\u00f3sofos. Elas depender\u00e3o, cada vez mais, da capacidade de construir ambientes onde diferentes formas de conhecimento possam dialogar de maneira cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o aspecto mais relevante do Centro seja, contudo, aquilo que ele escolhe investigar. Em um cen\u00e1rio no qual praticamente todas as organiza\u00e7\u00f5es discutem ganhos de efici\u00eancia, automa\u00e7\u00e3o e produtividade, sua primeira grande pergunta parece deslocar deliberadamente o foco da tecnologia para a aprendizagem humana: <strong>quem aprende quando a intelig\u00eancia artificial faz por voc\u00ea?<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A for\u00e7a dessa formula\u00e7\u00e3o reside justamente em sua simplicidade. Ela sintetiza uma inquieta\u00e7\u00e3o que atravessa educa\u00e7\u00e3o, criatividade, lideran\u00e7a e inova\u00e7\u00e3o. Durante s\u00e9culos, aprender significou executar, errar, repetir, corrigir e desenvolver repert\u00f3rio a partir da experi\u00eancia acumulada. Mas o que acontece quando parte crescente dessa experi\u00eancia \u00e9 delegada a sistemas capazes de produzir respostas instant\u00e2neas? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que acontece com o desenvolvimento do pensamento criativo quando a primeira vers\u00e3o de praticamente qualquer ideia pode ser gerada por um algoritmo? Como preservar autoria, julgamento e senso cr\u00edtico em um ambiente no qual executar deixa de ser a principal dificuldade? Essas quest\u00f5es n\u00e3o pertencem apenas ao universo da intelig\u00eancia artificial. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elas dizem respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de profissionais, pesquisadores, artistas, empreendedores e l\u00edderes. Ao escolher come\u00e7ar por essa pergunta, o Centro sinaliza que sua ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas contribuir para compreender como ela transforma aquilo que continua sendo essencialmente humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica produz uma ilus\u00e3o recorrente. Em um primeiro momento, tende-se a acreditar que o elemento decisivo ser\u00e1 a tecnologia em si. Foi assim com a eletricidade, com a inform\u00e1tica, com a internet e, mais recentemente, com a intelig\u00eancia artificial. Os primeiros anos costumam ser dominados pela corrida por infraestrutura, investimento, escala e ado\u00e7\u00e3o. Empresas disputam velocidade. Mercados disputam lideran\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Governos disputam soberania tecnol\u00f3gica. Mas, \u00e0 medida que essas tecnologias amadurecem, a competi\u00e7\u00e3o muda de natureza. Quando o acesso se democratiza, a vantagem deixa de estar exclusivamente nas ferramentas e passa a residir na qualidade das decis\u00f5es tomadas por quem as utiliza. A hist\u00f3ria da inova\u00e7\u00e3o demonstra esse padr\u00e3o de forma consistente. Poucas organiza\u00e7\u00f5es permanecem relevantes apenas porque adotaram uma tecnologia antes das demais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As que atravessam d\u00e9cadas de transforma\u00e7\u00e3o s\u00e3o aquelas capazes de reinterpretar continuamente o papel dessa tecnologia dentro de mudan\u00e7as culturais, econ\u00f4micas e humanas mais amplas. \u00c9 justamente essa transi\u00e7\u00e3o que parece come\u00e7ar a ocorrer com a intelig\u00eancia artificial. A quest\u00e3o central j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 quem possui acesso aos modelos mais sofisticados. Em poucos anos, esse acesso tende a se tornar relativamente comum. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o passa a ser quem desenvolve melhor capacidade de julgamento, repert\u00f3rio interdisciplinar, imagina\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e responsabilidade intelectual para orientar sistemas cujo poder continuar\u00e1 crescendo. Em outras palavras, a escassez desloca-se da computa\u00e7\u00e3o para a cogni\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse contexto que o encontro promovido pelo <strong>Centro Internacional de Criatividade e Intelig\u00eancia Artificial Aplicada<\/strong>, no pr\u00f3ximo <strong>17 de julho<\/strong>, adquire significado que ultrapassa a programa\u00e7\u00e3o de um evento. Seu tema \u2014 <strong>&#8220;Quem aprende quando a IA faz por voc\u00ea?&#8221;<\/strong> \u2014 representa uma inflex\u00e3o importante no debate contempor\u00e2neo sobre intelig\u00eancia artificial. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de perguntar quanto tempo ser\u00e1 economizado, quantos processos poder\u00e3o ser automatizados ou quantas tarefas poder\u00e3o ser delegadas aos algoritmos, a discuss\u00e3o parte de uma quest\u00e3o mais dif\u00edcil e provavelmente mais duradoura: o que acontece com a aprendizagem humana quando a execu\u00e7\u00e3o deixa de depender integralmente das pessoas? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de uma pergunta que atravessa praticamente todas as profiss\u00f5es criativas. Um redator que utiliza IA para produzir a primeira vers\u00e3o de um texto aprende da mesma forma que algu\u00e9m que constr\u00f3i um argumento desde a p\u00e1gina em branco? Um designer que recebe dezenas de alternativas instantaneamente desenvolve o mesmo repert\u00f3rio visual daquele que experimenta sucessivas solu\u00e7\u00f5es at\u00e9 chegar a uma composi\u00e7\u00e3o consistente? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudante que terceiriza parte do racioc\u00ednio para sistemas inteligentes preserva sua capacidade de formular problemas complexos? Nenhuma dessas perguntas possui resposta definitiva. E talvez seja precisamente por isso que elas precisem ser discutidas antes que as pr\u00e1ticas se consolidem como h\u00e1bitos invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A composi\u00e7\u00e3o do primeiro encontro revela uma compreens\u00e3o igualmente sofisticada desse desafio. Em vez de reunir apenas especialistas em tecnologia, o Centro aproxima perspectivas capazes de iluminar dimens\u00f5es complementares da mesma transforma\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mauro Cavalletti<\/strong>, Executive Creative Director da Bitnik, representa uma gera\u00e7\u00e3o de criativos que acompanhou a passagem da publicidade anal\u00f3gica para a cultura digital e agora observa a intelig\u00eancia artificial remodelar o pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o. Sua experi\u00eancia permite compreender como criatividade, linguagem e experimenta\u00e7\u00e3o se reorganizam quando novas ferramentas passam a participar da elabora\u00e7\u00e3o de ideias. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Camilo Barros<\/strong>, Chief Business Officer do Institute for Tomorrow, traz para a conversa uma abordagem voltada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de futuros, estrat\u00e9gia e transforma\u00e7\u00e3o organizacional, lembrando que a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o altera apenas produtos ou campanhas, mas tamb\u00e9m modelos de neg\u00f3cio, capacidades institucionais e formas de tomada de decis\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Stela Pagani<\/strong>, COO e s\u00f3cia da 20DASH, acrescenta uma perspectiva decisiva para o debate contempor\u00e2neo: a gest\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o em ambientes onde tecnologia, pessoas e cultura precisam evoluir simultaneamente. Observados em conjunto, esses tr\u00eas convidados n\u00e3o representam apenas diferentes organiza\u00e7\u00f5es. Representam tr\u00eas tradi\u00e7\u00f5es intelectuais indispens\u00e1veis para compreender o futuro da criatividade: a cria\u00e7\u00e3o, a estrat\u00e9gia e a capacidade de transformar conhecimento em organiza\u00e7\u00f5es capazes de aprender continuamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez essa seja, afinal, a principal contribui\u00e7\u00e3o do Centro Internacional de Criatividade e Intelig\u00eancia Artificial Aplicada para o debate internacional. Em vez de organizar mais uma conversa sobre ferramentas, ele prop\u00f5e discutir aquilo que permanecer\u00e1 relevante quando as ferramentas deixarem de ser novidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intelig\u00eancia artificial continuar\u00e1 evoluindo. Novos modelos surgir\u00e3o. Capacidades hoje consideradas extraordin\u00e1rias tornar-se-\u00e3o rotineiras. A velocidade dessa transforma\u00e7\u00e3o dificilmente diminuir\u00e1. O que permanecer\u00e1 em aberto ser\u00e1 uma quest\u00e3o muito mais dif\u00edcil de responder: como preservar a criatividade como uma compet\u00eancia genuinamente humana em um ambiente onde a execu\u00e7\u00e3o tende a ser cada vez mais automatizada? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pergunta n\u00e3o interessa apenas ao mercado publicit\u00e1rio nem \u00e0s empresas de tecnologia. Ela diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de professores, pesquisadores, artistas, empreendedores, cientistas, gestores p\u00fablicos e l\u00edderes empresariais. Diz respeito, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e0 capacidade das sociedades de continuar produzindo conhecimento original quando grande parte das respostas j\u00e1 puder ser gerada automaticamente. Ao transformar essa inquieta\u00e7\u00e3o em agenda permanente de pesquisa, di\u00e1logo e reflex\u00e3o, o Centro sinaliza uma mudan\u00e7a importante de posicionamento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil, tradicionalmente reconhecido pela excel\u00eancia de sua produ\u00e7\u00e3o criativa, come\u00e7a a reivindicar tamb\u00e9m um lugar na formula\u00e7\u00e3o das ideias que orientar\u00e3o a pr\u00f3xima etapa da economia do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma raz\u00e3o pela qual esse movimento merece ser observado com aten\u00e7\u00e3o. Ao longo da hist\u00f3ria, pa\u00edses conquistaram proje\u00e7\u00e3o internacional exportando recursos naturais, produtos industriais, tecnologias ou bens culturais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O s\u00e9culo XXI acrescenta uma nova dimens\u00e3o a essa equa\u00e7\u00e3o: a capacidade de produzir institui\u00e7\u00f5es que ajudem o mundo a compreender transforma\u00e7\u00f5es complexas. Em um cen\u00e1rio marcado pela acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, talvez o recurso mais escasso n\u00e3o seja informa\u00e7\u00e3o, processamento ou conectividade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja a capacidade coletiva de interpretar as consequ\u00eancias dessas mudan\u00e7as antes que elas se tornem irrevers\u00edveis. Se essa hip\u00f3tese estiver correta, iniciativas como o Centro Internacional de Criatividade e Intelig\u00eancia Artificial Aplicada n\u00e3o representam apenas um novo espa\u00e7o de debate. Representam um investimento em infraestrutura intelectual. E infraestrutura intelectual constitui uma das formas mais sofisticadas de soft power que uma sociedade pode construir. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cannes Lions 2026 mostrou que criatividade e intelig\u00eancia artificial passaram definitivamente a compartilhar o mesmo palco. O desafio que se abre agora \u00e9 decidir quem ajudar\u00e1 a escrever o roteiro dessa nova era. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil parece ter decidido que pretende participar dessa conversa n\u00e3o apenas como protagonista criativo, mas como produtor de pensamento. Em um mundo no qual m\u00e1quinas aprendem cada vez mais r\u00e1pido, essa talvez seja a decis\u00e3o mais estrat\u00e9gica de todas: investir na capacidade humana de continuar fazendo as perguntas que nenhuma intelig\u00eancia artificial pode formular sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br><strong>Evento:<\/strong> Quem aprende quando a IA faz por voc\u00ea?<br><strong>Data:<\/strong> 17 de julho<br><strong>Hor\u00e1rio:<\/strong> 16h<br><strong>Formato:<\/strong> presencial<br><strong>Local:<\/strong> Av. Dr. Chucri Zaidan, 246, 25\u00ba andar, Vila Cordeiro, S\u00e3o Paulo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O futuro da criatividade n\u00e3o ser\u00e1 decidido apenas por quem domina a tecnologia. Ser\u00e1 decidido por quem souber fazer as melhores perguntas.<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante boa parte dos \u00faltimos setenta anos, a criatividade foi tratada como um atributo essencialmente humano. Podia ser ensinada, estimulada, refinada e organizada em processos, mas permanecia associada \u00e0 capacidade singular de imaginar o que ainda n\u00e3o existia, conectar ideias aparentemente desconectadas e atribuir significado ao mundo. 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