Únete a WCO
Únete a WCO

A hora e a vez do Profissional da Criatividade

Há 10 anos, quando o Future of Jobs Report foi publicado pela primeira vez pelo World Economic Forum, a criatividade já ocupava crescente destaque entre as habilidades mais relevantes para o futuro do trabalho. Naquele relatório inaugural, elaborado em pleno contexto da chamada Quarta Revolução Industrial, o Fórum já alertava que o avanço da automação…
Press Room • 5 de enero de 2026

Há 10 anos, quando o Future of Jobs Report foi publicado pela primeira vez pelo World Economic Forum, a criatividade já ocupava crescente destaque entre as habilidades mais relevantes para o futuro do trabalho. Naquele relatório inaugural, elaborado em pleno contexto da chamada Quarta Revolução Industrial, o Fórum já alertava que o avanço da automação e da inteligência artificial deslocaria o valor econômico do trabalho humano para capacidades como criatividade, resolução de problemas complexos, pensamento crítico e flexibilidade cognitiva.

Passados quase dez anos, o diagnóstico permanece consistente — e os dados se repetem. O Future of Jobs Report 2025 volta a posicionar o pensamento criativo entre as competências centrais e em crescimento, ao lado de aprendizagem contínua, resiliência, curiosidade e liderança em contextos ambíguos. Ainda assim, o cenário interno das organizações pouco mudou.

Essa recorrência revela uma demanda real: a criatividade precisa ser tratada como uma função profissional estruturada. E é nesse ponto que, em 2026, a Organização Mundial da Criatividade apresenta uma atualização conceitual necessária, e urgente.

Uma década de evidências

No relatório de janeiro de 2016, o Fórum já indicava que cerca de 35% das habilidades centrais dos trabalhadores seriam disruptadas até 2020, e que competências humanas, especialmente aquelas ligadas à cognição criativa, seriam decisivas para a adaptação das organizações. O relatório destacava explicitamente capacidades como creativity, cognitive flexibility e active learning como diferenciais frente à automação.

Em 2020, em meio à pandemia, esse número chegou a ultrapassar 50% de disrupção de habilidades. Em 2025, mesmo com maior maturidade digital, o Fórum estima que 39% das habilidades centrais dos trabalhadores mudarão até 2030, mantendo a criatividade entre as competências que mais crescem em importância.

Ou seja: há quase uma década o alerta é o mesmo. A criatividade não é um “nice to have”; ela é condição de sobrevivência. Ainda assim, as organizações continuam tratando-a como um atributo difuso, distribuído informalmente entre cargos existentes, sem governança, sem mandato estratégico e sem métricas claras de impacto.

Onde está o verdadeiro bloqueio?

Para compreender por que esse impasse persiste, é indispensável recorrer à teoria de Edgar Schein, uma das maiores autoridades mundiais em cultura organizacional.

Schein define cultura organizacional como:

“Um padrão de pressupostos básicos compartilhados que um grupo aprendeu à medida que resolveu seus problemas de adaptação externa e integração interna, e que funcionou bem o suficiente para ser considerado válido e, portanto, ensinado a novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e sentir.”

Essa definição expõe o cerne do problema: organizações não mudam porque seus pressupostos básicos não mudam. E criatividade, quando reduzida a competência transversal, não possui força institucional suficiente para questionar esses pressupostos.

É por isso que, apesar de investimentos massivos em tecnologia, inovação aberta, design thinking e inteligência artificial, as organizações seguem enfrentando os mesmos entraves estruturais:

  • Rigidez mental e cognitiva, que cristaliza modelos mentais obsoletos
  • Baixa capacidade de aprendizagem contínua, mesmo em ambientes de disrupção
  • Dificuldade de lidar com ambiguidade, incerteza e transição
  • Resistência cultural à mudança, sobretudo quando ela ameaça identidades profissionais e estruturas de poder

Segundo Schein, mudanças profundas exigem intervenções intencionais no nível da cultura, algo que não ocorre por acaso nem como efeito colateral da tecnologia.

Nasce o Profissional da Criatividade

Os dados são claros e recorrentes. Tanto o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, quanto o Global Innovation Index 2025, publicado pela World Intellectual Property Organization, convergem em um mesmo ponto: a capacidade criativa tornou-se um fator crítico de desempenho econômico, organizacional e nacional.

No entanto, ambos os relatórios revelam uma lacuna persistente entre diagnóstico e execução.

O que o Future of Jobs 2025 evidencia

O relatório do WEF aponta que:

  • Pensamento criativo está entre as competências que mais crescem em importância até 2030
  • 39% das habilidades centrais da força de trabalho precisarão mudar
  • As organizações enfrentam déficits estruturais em aprendizagem contínua, adaptabilidade, liderança e capacidade de lidar com ambiguidade

Apesar disso, o próprio relatório reconhece que a maioria das empresas não consegue converter essas competências em transformação real, mantendo-as no plano do discurso, do treinamento pontual ou do atributo individual.

Ou seja: a criatividade é reconhecida como crítica, mas não é governada como função estratégica.

O que o Global Innovation Index 2025 confirma

O Global Innovation Index aprofunda esse diagnóstico ao analisar o desempenho inovador de países, regiões e organizações. O relatório demonstra que:

  • Os ecossistemas mais inovadores não são apenas os mais tecnológicos, mas os que melhor articulam capital humano, cultura organizacional, diversidade cognitiva e capacidade criativa aplicada
  • Países e organizações líderes em inovação investem de forma consistente em capacidades intangíveis, como pensamento criativo, colaboração interdisciplinar e experimentação
  • Há um descompasso crescente entre investimento em P&D e capacidade real de transformar conhecimento em valor econômico, social e cultural

Em outras palavras, inovação estagna quando a criatividade não é intencionalmente cultivada, estruturada e liderada.

A lacuna estrutural: criatividade sem função

A leitura combinada dos dois relatórios revela um padrão inequívoco:

a criatividade é tratada como insumo difuso, mas não como responsabilidade profissional clara.

Ela é exigida:

  • de líderes, mas sem suporte estrutural
  • de equipes, mas sem mediação cultural
  • de indivíduos, mas sem mandato institucional

Esse modelo falha porque, como demonstrado pela teoria de cultura organizacional, competências transversais não alteram pressupostos culturais por si só. Elas precisam de função, legitimidade, método e autoridade simbólica.

É exatamente nesse ponto que se torna inevitável a transição do diagnóstico à função.

O Profissional da Criatividade como resposta sistêmica

Para nós, da World Creativity Organization, os dados do WEF e do Global Innovation Index apontam para a mesma conclusão: não basta reconhecer a criatividade como competência crítica; é necessário instituí-la como profissão.

O Profissional da Criatividade emerge como uma função estratégica que atua onde os relatórios identificam os maiores gargalos:

  • Na rigidez cognitiva e cultural
  • Na baixa capacidade de aprendizagem organizacional
  • Na dificuldade de traduzir conhecimento, tecnologia e inovação em impacto
  • Na gestão de transições complexas, humanas e institucionais

Trata-se de um profissional preparado para:

  • Destravar pensamento e revisar pressupostos
  • Ampliar repertórios cognitivos e culturais
  • Facilitar processos de adaptação e mudança
  • Criar novas respostas sistêmicas para problemas complexos

Essa atuação não substitui inovação, tecnologia ou sustentabilidade. Ela as viabiliza.

O papel da World Creativity Organization

Diante dessa lacuna global, a World Creativity Organization assume um papel institucional claro:
legitimar, desenvolver, capacitar, certificar e advogar pela criatividade como campo profissional autônomo.

Nosso trabalho é:

  • Legitimar o Profissional da Criatividade como função estratégica em organizações, empresas, instituições e governos
  • Desenvolver referenciais conceituais, éticos e metodológicos para a prática profissional
  • Capacitar profissionais para atuar em contextos de alta complexidade e transformação
  • Certificar competências e trajetórias, conferindo reconhecimento e credibilidade
  • Advogar globalmente para que a criatividade seja reconhecida como carreira, assim como ocorreu com sustentabilidade e inovação

Ao fazer isso, respondemos diretamente às evidências acumuladas por quase uma década de relatórios globais que apontam o mesmo problema, e, até agora, receberam respostas insuficientes.

Da evidência à institucionalização

Depois de anos de diagnósticos consistentes, o cenário é claro:
o futuro do trabalho não será definido apenas por novas tecnologias, nem por inovação sem lastro humano.

Ele será definido pela capacidade de rever pressupostos, aprender continuamente e criar sentido coletivo em contextos complexos.

Essa capacidade tem nome, função e campo de atuação.
Ela se chama Profissional da Criatividade.

Esse movimento não é novo. Outros campos seguiram trajetória semelhante:

  • Sustentabilidade, nos anos 2000, deixou de ser pauta difusa para se tornar função estratégica, com cargos, métricas e governança próprias.
  • Inovação, nos anos 2010, deixou de ser atributo espontâneo para se institucionalizar em áreas, lideranças e processos formais.

A partir de 2020, observamos o mesmo amadurecimento no campo da criatividade. A diferença é que, até agora, faltou o reconhecimento formal de sua função profissional específica.

Os dados do Future of Jobs mostram que o problema não é falta de evidência. É falta de estrutura cultural para agir sobre ela.

O Ano da Criatividade no Brasil como ponto de inflexão

Nesse contexto, o Ano da Criatividade no Brasil representa uma oportunidade histórica para ampliar a compreensão do papel da criatividade no desenvolvimento econômico, social e cultural do país — não apenas como expressão simbólica, mas como infraestrutura humana estratégica.

Ao liderar esse debate, o Brasil pode contribuir para uma atualização global: reconhecer que, diante de um mundo em permanente transição, não basta exigir criatividade das pessoas. É preciso profissionais preparados para cultivá-la, estruturá-la e aplicá-la de forma estratégica dentro das organizações e da sociedade.

Depois de quase uma década de alertas consistentes do World Economic Forum, a conclusão é inequívoca:
o problema nunca foi a ausência de diagnóstico.

A hora, agora, é de evolução conceitual.
A vez é do Profissional da Criatividade.


Veja também: